02 agosto 2017

Ambientalismo, Internacionalismo e Conservadorismo

"Experimente localmente, pense nacionalmente."

O conservadorismo é uma maneira de pensar a sociedade, baseando-se na psicologia profunda, em que os valores mais caros das pessoas são devidamente respeitados: família, lugar, relacionamentos. É também uma parceria entre vivos e mortos e os que estão por nascer, pois o que estaremos fazendo hoje afetará substancialmente os que estão por vir.  

Oikophilia, o amor pelo lar, serve à causa do ambientalismo. Esta tese ainda não foi bem explorada pelos partidos conservadores. Talvez por causa da ideologia do grande capital ou pela visão distorcida dos próprios ambientalistas. Além do mais, ainda que haja posições radicais quanto a deixar o planeta para os nossos netos, há que se levar em conta a externalização dos custos, ou seja, o procedimento de jogar o lixo no quintal do vizinho. 

O conservadorismo não é internacionalista e desconfia de todas as artimanhas de se controlar as atividades políticas, econômicas e sociais fora do país de origem. Entende-se que os Estados soberanos são pessoas jurídicas e devem negociar entre si, levando-se em conta um sistema de direitos, deveres, obrigações e responsabilidades.

Hegel e Kant fornecem subsídios para este estudo. Hegel, no livro Fenomenologia do Espírito mostra como a autoconsciência e liberdade surgem pelo aventurar-se do Eu rumo ao Outro. Kant, por sua vez, propôs em À Paz Perpétua uma jurisdição internacional que garantisse a paz entre as juridições vizinhas. Foi o idealizador de A Liga das Nações. 

Não somos homo oeconomicus, buscando incessantemente satisfazer os desejos privados. Procuramos antes construir lares, fazer amigos, participar de clubes, entidades filantrópicas, etc. De acordo com Hayek, a sociedade deveria funcionar espontâneamente: uma ordem que emerge de uma mão invisível, a partir das relações de uns com os outros. 

Saibamos aplicar conscientemente a maximização do interesse pessoal. Não deixemos que o Estado tome conta de tudo, como no comunismo que, eliminando clubes e associações impeça de verificar os seus próprios erros. 

SCRUTON, Roger. Como Ser um Conservador. Tradução de Bruno Garschagen.  4. ed., Rio de Janeiro: Record, 2016. 
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28 julho 2017

Multiculturalismo

O movimento denominado "multiculturalismo" ocorreu nos Estados Unidos e teve por objetivo a elevação e a valorização de meios formativos étnicos diferentes, enaltecendo uma maior tolerância entre pessoas de sexo e culturas diversas. O movimento em si é positivo, embora tenhamos de conviver com o "inclusivismo", fruto das ideias do politicamente correto.

O multiculturalismo só se solidificou depois da vinda do Iluminismo, com a sua moralidade universal e a igualdade racial e sexual. O Iluminismo incentivava as pessoas pensarem com a própria cabeça, como bem retratou Kant no seu sapere aude!, ou seja, "ouse saber", "tenha coragem de pensar por si mesmo!". Saia de sua minoridade intelectual. 

A grande dificuldade da aplicação do multiculturalismo é que todos nos levamos conosco um baú. Antes do Iluminismo, a religião ditava as normas, o modo de agir, a moral. Depois, desligados da religião, criou-se um outro tipo de crença, que é o "inclusivismo" da raça, da cultura. Qualquer olhar contrário, aplica-se a pecha de racista.  

Os contatos culturais são muito importantes, pois cada um pode aprender com as culturas do outro, desde que não haja uma manipulação por parte dos países mais desenvolvidos. Mas, mesmo que isso ocorra, a influência nuca será uma rua de mão única, pois é sumamente difícil não nos influenciarmos mutualmente.

Somos uma individualidade que pertence ao todo, ou seja, à humanidade. Por mais que se queira esconder um talento, mais ou menos tempo ele vem à tona. Observe Jesus. Quem poderia prever que um carpinteiro teria toda essa repercussão sobre uma grande parte dos seres humanos?

Não nos esquivemos das verdades inconvenientes. Derrubemos os muros que estão nos impedindo de ver a realidade como ela é.  

Fonte de Consulta


SCRUTON, Roger. Como Ser um Conservador. Tradução de Bruno Garschagen.  4. ed., Rio de Janeiro: Record, 2016. 
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26 julho 2017

Liberalismo

O liberalismo de hoje não tem o mesmo significado que tinha no passado. No século XIX, preservava-se a liberdade do indivíduo e, consequentemente, a autoridade e a coerção só eram justificáveis se exigidas pela liberdade. Nos Estados Unidos, "liberais" seriam de "esquerda" em termos europeus, isto é, pessoas que aceitam um maior papel do Estado na Economia muito mais do que seria endossado pelos conservadores. 

Para uma boa compreensão do liberalismo, urge separarmos política de religião. A religião é estática; a política, dinâmica. Na religião, obedecemos à revelação, à ortodoxia, aos dogmas impostos por tal corpo doutrinário. Na política, devemos estar sujeitos às leis estabelecidas pelo consenso a que se chegou depois de discussões, opiniões e contrariedades. 

Na modernas democracias – uma sociedade de desconhecidos , leva-se muito em conta o princípio de responsabilidade. Significa dizer que quando um de seus membros quebra uma norma estabelecida, prejudicando terceiros, terá obrigatoriamente de ressarci-los. Nesse caso, um ladrão, mesmo depois de preso, deve devolver o valor do roubo. 

As sociedades modernas estão fundamentadas nos direitos e deveres. Os direitos permitem estabelecer uma sociedade baseada em normas. "Um direito é como um muro que define o meu território soberano: ao reivindicá-lo, estabeleço um veto absoluto sobre aquilo que o outro pode fazer". 

A Parábola do bom samaritano, em que um desconhecido ajuda outro desconhecido no caminho de Damasco, impõe enorme responsabilidade sobre todos nós. 

Fonte de Consulta


SCRUTON, Roger. Como Ser um Conservador. Tradução de Bruno Garschagen.  4. ed., Rio de Janeiro: Record, 2016. 
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24 julho 2017

O Capitalismo ante o Socialismo

O termo "capitalismo" entrou na Europa pelos escritos de Saint-Simon. Marx o apropriou para indicar propriedade privada institucionalizada dos "meios de produção". Como se deu? Marx comparou o capitalismo com outros sistemas de produção, argumentando que a escravidão foi destruída pela feudalismo, e este, pelo capitalismo. Em contrapartida, o capitalismo será destruído pelo socialismo. Embora engenhosa, carece de fundamentos e suas previsões são falhas.  

Qual é a verdade no capitalismo, que é negada pelo socialismo? A propriedade privada e as trocas voluntárias são características de qualquer economia de grande escala. Assim, a verdade no capitalismo está em aceitar que uns dependem dos outros para sobreviver e prosperar. As ideologias marxistas, porém, combatem esses argumentos. 

A escola austríaca  Ludwig von Mises e Friedrich Hayek – propõe três respostas à teoria socialista em que os preços e produção seriam controlados pelo Estado. 1) a atividade econômica depende do conhecimento dos desejos, necessidades e recursos das pessoas. 2) Esse conhecimento está disperso na sociedade e não depende de nenhum indivíduo. 3) nas trocas voluntárias de bens e serviços, o mecanismo de preços garante o acesso a esse conhecimento. Não como uma declaração teórica, mas apenas uma indicação para uma determinada ação. 

Somente numa economia livre, o preço de uma mercadoria transmite uma informação confiável. Quando todos os meios de produção estão nas mãos do Estado, fica difícil estabelecer preços em função dos custos e do mercado.  

Para que o livre comércio funcione satisfatoriamente, todas as transações devem se apoiar em sanções morais e legais, criadas para manter os agentes econômicos fiéis aos seus acordos. Se houver desvio, as leis obrigarão cada qual a restituir os danos causados a outrem. 

Fonte de Consulta

SCRUTON, Roger. Como Ser um Conservador. Tradução de Bruno Garschagen.  4. ed., Rio de Janeiro: Record, 2016. 
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22 julho 2017

Socialismo: Falácia do Jogo de Soma Zero

Socialismo é o conjunto de doutrinas que visam uma reforma radical da sociedade humana, por meio da supressão das classes sociais, pela coletivização dos meios de produção e do intercâmbio comercial. O Oxford English Dictionary define socialismo como “teoria ou política que defende a posse ou o controle dos meios de produção – capital, terra, propriedade etc. – pela comunidade em conjunto, e a sua administração no interesse de todos”.

Na Antiguidade, Platão, com sua sociedade ideal; na Renascença, as utopias (Thomas More). Com a Revolução Industrial e as crises que se seguem, aparecem na França diversos tipos de socialismo (utópico, associacionista, de Estado, cristão), preparando o terreno para o socialismo marxista, ou socialismo científico. 

O socialismo marxista é fruto de um estudo, feito por Marx e Engels, da filosofia idealista alemã, do pensamento socialista francês e da economia política capitalista inglesa. O pano de fundo é uma crítica ao regime capitalista, propondo uma ação contra o Estado capitalista para conquistar o poder, que se faria através da ditadura do proletariado. 

Os socialistas acreditam que de alguma forma os indivíduos são todos iguais. A maioria luta pela igualdade. Daí, criarem ilusões ou falácias. A falácia do jogo de soma zero é uma delas. O jogo de soma zero significa dizer que quando um ganha o outro perde. 

A educação é um ramo bastante fértil para caracterizar a falácia da soma zero: o ensino inclusivo, onde todos são avaliados por baixo. O professor não pode reprovar o aluno e os mais capazes não podem se sobressair. Não se pode magoar os menos capazes. Observe quando se permitiu usar o "nós vai" em nossa língua portuguesa. 

Um desdobramento dessa falácia. Quando uma pessoa enriquece e a outra fica pobre não há comentários. Mas, se um indivíduo pertence a uma classe que tem dinheiro e o outro a uma classe sem dinheiro, a falácia está posta: o pobre transfere dinheiro para o rico. Não se leva em questão o mérito e a produtividade de cada indivíduo considerado.

No socialismo, deveríamos refletir sobre a nossa dependência mútua e a necessidade de nos ajudarmos uns aos outros. Isso nos remete ao jogo de soma positiva. Eu posso transferir conhecimento ao outro; o outro pode me transferir conhecimento. Ninguém ficou mais pobre por causa dessa ação. 

Para mais informações:


SCRUTON, Roger. Como Ser um Conservador. Tradução de Bruno Garschagen.  4. ed., Rio de Janeiro: Record, 2016. 
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14 julho 2017

Augusto Nunes Entrevista Miguel Reale Jr.

Augusto Nunes, no programa "Perguntar não Ofende", da Jovem Pan, conversa com o professor Miguel Reale Jr. sobre a peça probatória da condenação de Lula pelo juiz Sérgio Moro, os partidos políticos, parlamentarismo, entre outros. 



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26 junho 2017

Dois Mundos, por J. R. Guzzo


Publicado na edição impressa da Veja.

A vida pública no Brasil degenerou a tal ponto que ficou criada a seguinte situação: os sócios-proprietários do governo, divididos em bandos rivais que tentam se exterminar uns aos outros, perderam a capacidade de tomar qualquer decisão certa, seja ela qual for. Só conseguem errar. Um lado aposta “par”, o outro lado aposta “ímpar” e os dois perdem — é aonde chegamos, pela ação das facções que mandam hoje no país e passaram a acreditar, nos últimos anos, que podem salvar os seus interesses políticos e materiais dedicando-se a uma campanha permanente de suicídio. Há 14 milhões de brasileiros desempregados, levando uma vida de tormento silencioso e diário, enquanto os donos do aparelho de governo fazem tudo o que podem para manter o mundo da produção paralisado e sem oportunidades. O Brasil chegou aos 60 000 homicídios por ano — e responde por 10% de todos os assassinatos cometidos no mundo. Não há esgotos. Mas os barões, duques e arquiduques que controlam as decisões públicas se matam para ganhar seus joguinhos nos tribunais e em outros terreiros de disputa. Estão cegos.

Poucas vezes a degradação que criaram no país ficou tão clara quanto no desvairado “julgamento” do presidente Michel Temer, dias atrás, pela aberração conhecida como “Tribunal Superior Eleitoral”. De um lado, é mais do que sabido, pela exposição dos fatos, que em 2014 a ex-presidente Dilma Rousseff fez a campanha mais corrompida, fraudada e criminosa na história das eleições brasileiras, levando-se em conta a estonteante quantidade de delitos cometidos para mantê-la no cargo. É impossível, também, fazer de conta que o atual presidente, na condição de seu vice, não foi um beneficiário direto da trapaça — simplesmente ganhou a Presidência da República quando Dilma foi despejada do posto por fraude contábil, depois de um governo corrupto, trapaceiro e inepto. As provas dos crimes são indiscutíveis, e até os ministros do TSE concordam que a campanha foi paga com dinheiro roubado. Mas decidiram que Michel Temer deve continuar no cargo, porque em seu entender as provas contra a chapa vencedora, embora reais e concretas, não são válidas. Quer dizer: valem, mas na hora em que foram apresentadas não estavam mais valendo, pois apenas nossos cientistas jurídicos sabem que uma banana, hoje, pode ser uma laranja amanhã.

De outro lado, é um completo disparate achar que sete nulidades, que jamais foram eleitas nem para inspetor de quarteirão, possam decidir se o presidente da República fica ou não no cargo. Quem o coloca lá é o eleitorado. Quem tem o direito de tirá-lo é o Congresso Nacional, e não o senhor Benjamin ou o senhor Gilmar, o senhor Napoleão ou dona Rosa, e outros gigantes do mesmo porte. Quem é essa gente? Por que fazer um processo judicial que se arrasta por anos, se os juízes decidem que as provas não servem para nada e se não têm a mínima condição lógica para depor o presidente da República? Seja lá o que façam, não podem acertar. Apesar dessa insanidade geral, a desordem continua. O procurador-geral da República, agora, quer tirar Temer por “obstrução da Justiça” e outros crimes, sabendo muito bem que a Câmara dos Deputados não vai aceitar sua denúncia. A Câmara, por seu lado, ameaça chamar o procurador para explicar por que, em sociedade com um ministro do Supremo Tribunal Federal, perdoou sem nenhum processo judicial aos autores confessos de uma das mais delirantes operações de corrupção de toda a história brasileira.

A reação popular à “absolvição” do presidente foi a mais humilhante indiferença — a melhor resposta, possivelmente, para os que são donos do governo, da máquina pública e do Tesouro Nacional. Trata-se dessa aglomeração de políticos, magistrados, procuradores, lobistas, chefes de gangues partidárias, acionistas do Erário e todos os demais parasitas que desfilam pelo noticiário. Fingem que estão ocupadíssimos na solução das mais graves questões da vida nacional. Sabem perfeitamente que no Brasil há problemas de dois tipos — os problemas deles e os problemas da população, e que esses dois mundos jamais se tocam. Quanto tempo vai durar o mandato de Temer? Como acordou hoje o senador Calheiros — contra as reformas, a favor das reformas? O PSDB vai ficar no governo, sair ou ficar e sair ao mesmo tempo? Qual o último chilique do ministro fulano do STF, ou do STJ, do TSE ou de onde for? Lula é um líder nacional ou um futuro presidiário? Enquanto isso, como diria o deputado Justo Veríssimo, os desempregados que se explodam.

Extraído de: http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/j-r-guzzo-dois-mundos/

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22 junho 2017

Asa Branca em Sete Versões

"Asa Branca", de Luiz Gonzaga, completa 70 anos. Para homenageá-la, o site de Luiz Berto, publicou 7 versões em diferentes línguas. 

Confira: 



Francês:
Chinês:
Alemão:
Senegal:
하얀 날개(Asa Branca) Hayan Nalgae (White Wings)
Inglês:
Português:


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17 maio 2017

João Dória: Discurso em Nova Iorque

Vídeo do YouTube em que João Doria, prefeito da cidade de São Paulo, faz discurso ao receber prêmio de "Personalidade do Ano 2017" em Nova Iorque. 






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07 maio 2017

Editorial do Estadão de 04/05/2017

Assim que a 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), por 3 votos a 2, concedeu habeas corpus em favor do ex-ministro José Dirceu, condenado em primeira instância no âmbito da Lava Jato e preso preventivamente, os procuradores da operação anunciaram, mais uma vez, que todo o esforço da luta contra a corrupção estava sob risco.
É compreensível que os integrantes da Lava Jato procurem defender seu trabalho daquilo que enxergam como ameaça, mas a operação não é tão frágil quanto fazem parecer os procuradores. “Entendo que de modo algum a Operação Lava Jato está comprometida”, comentou o ministro Celso de Mello, um dos votos contrários à concessão do habeas corpus. Para o decano da Corte, o que se espera da Lava Jato é que aprofunde as investigações, “uma vez respeitadas as garantias que a Constituição e as leis da República estabelecem”.
O importante a salientar no caso de Dirceu e de dois outros condenados em primeira instância que foram soltos pelo Supremo – o pecuarista José Carlos Bumlai e o ex-tesoureiro do PP João Cláudio Genu – é que, conforme entendimento do STF, há excesso nas prisões preventivas na Lava Jato, que funcionariam como execução antecipada de pena.
No caso de Dirceu, o Ministério Público Federal considerou que se está diante de um condenado com “notória periculosidade”, demonstrada pela “habitualidade criminosa”, que continuou mesmo depois da condenação no mensalão. O Supremo, porém, fez prevalecer a presunção da inocência até a apreciação de apelação de sentença condenatória.
Ademais, ao suporem que Dirceu pode cometer novos crimes ou comprometer as investigações se ficar solto, os procuradores confessam que, desde agosto de 2015, quando o petista foi preso, não foram capazes de avançar em seu trabalho, que teria continuado vulnerável à intervenção de Dirceu. Tanto é assim que a Lava Jato entrou com nova denúncia contra José Dirceu no mesmo dia em que o Supremo analisava o pedido de habeas corpus – uma “brincadeira juvenil”, como classificou o ministro Gilmar Mendes.
A inquietação dos procuradores da Lava Jato com a soltura de Dirceu resultaria da percepção de que essa decisão seria um indicativo de que outros presos importantes poderiam ser libertados. Se existe, tal preocupação revela que, ao contrário do que sempre sustentaram, os procuradores apostam nas prisões para obter dos condenados as informações que buscam, por meio de delação premiada. Os membros da força-tarefa dariam a entender, portanto, que, se não conseguirem manter atrás das grades os figurões do petrolão, não induzirão os potenciais delatores a dizerem o que sabem e, por isso, será interrompido o fluxo de informações que abastece a operação.
Ora, como ficou claro até aqui, os delatores só decidiram falar quando ficou evidente que passariam muito tempo na prisão se não colaborassem. Ou seja, não era a prisão preventiva que os amedrontava, e sim a possibilidade de ficar muitos anos – talvez a vida inteira – na cadeia. Portanto, sob esse aspecto, pouco importa se Dirceu e outros personagens estão presos, e sim a qualidade da investigação em si. Quanto mais indícios forem reunidos, maior será a colaboração dos que têm algo a contar.
A Lava Jato, porém, há muito tempo parece ter deixado de ser uma investigação policial. A operação parece prisioneira da presunção de que tem um papel a desempenhar no futuro da política e da Justiça no Brasil, razão pela qual qualquer ponderação que ponha em dúvida seus métodos e suas certezas será vista como manobra contra seu prosseguimento. O discurso messiânico de alguns de seus principais integrantes sugere que, para eles, todas as instituições do País estão apodrecidas, com exceção do Ministério Público. Em sua ânsia de sanear o País, a Lava Jato comete erros – e um deles deu um gostinho de vitória a José Dirceu, um dos personagens mais nefastos da história brasileira.
A Lava Jato corre riscos, sim, mas não os que são denunciados por seus integrantes. A maior ameaça está no comportamento imperioso de alguns procuradores e na absurda demora do Supremo para julgar os casos que lhe competem. É isso – e não a revogação da prisão de alguns réus, de acordo com o que manda a lei – que contribui para desacreditar a Justiça.
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