26 janeiro 2026

A Regra dos 3,5%

A chamada teoria (ou regra) dos 3,5% tem origem em estudos sobre política e comportamento coletivo, que observaram a conduta humana e concluíram que apenas 3,5% da população, quando bem organizada, coesa e perseverante, pode ser suficiente para provocar a ruptura de um sistema político, social ou econômico.

Em termos históricos, há exemplos em que essa teoria se mostrou eficaz. Na Índia, o movimento liderado por Mahatma Gandhi, e nos Estados Unidos, a luta pelos direitos civis conduzida por Martin Luther King Jr., demonstram como minorias bem estruturadas conseguiram promover mudanças profundas. Por outro lado, também existem casos em que a teoria não se confirmou, sobretudo quando a adesão foi numerosa, porém desorganizada ou carente de objetivos claros, fazendo com que o movimento perdesse força ao longo do tempo.

De um lado, temos grupos da sociedade se organizando; de outro, governos e instituições buscando se defender. Atualmente, as redes sociais exercem papel ambíguo: ao mesmo tempo em que favorecem a mobilização rápida e em tempo real, também podem fragilizar os movimentos, pois a intensidade inicial nem sempre se sustenta a longo prazo. A explosão de engajamento costuma ser forte, mas frequentemente carece de coesão e continuidade.

Tudo parece estar centrado na primeira faísca. O poder de combustão de um fósforo é pequeno, mas, ao entrar em contato com palha seca, pode se alastrar em segundos e até consumir uma floresta inteira. Eis o poder de uma semente minúscula, capaz de impulsionar uma cidade, um estado, um país — e até o mundo.

Já alertava um provérbio chinês que “uma caminhada de mil léguas começa com o primeiro passo”. No início, esse passo pode ser hesitante e vacilante, mas, se houver continuidade — mesmo “com os joelhos desconjuntados”, como diria o apóstolo Paulo —, o advento do êxito se torna cada vez mais próximo.

Por fim, somente a perseverança na defesa de uma ideia é capaz de conduzi-la ao sucesso. O restante é fogo-fátuo, que se dissipa e acaba ficando pelo meio do caminho.

12 janeiro 2026

Orbán e o Destino da Hungria

Em 10 de janeiro de 2026, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, proferiu um discurso no congresso do seu partido Fidesz em Budapeste, em que afirmou: "na primavera de 2026, escolheremos nosso destino: o caminho da paz ou o caminho da guerra". 

Ao abrir o discurso, o primeiro-ministro Orbán anunciou que a aliança governista divulgaria publicamente seus 106 candidatos distritais, descrevendo-os como prontos para apoiar e defender uma Hungria independente após mais uma vitória eleitoral. A lista inclui 65 candidatos que já haviam participado e 41 novos candidatos. O primeiro-ministro Orbán também afirmou que o partido precisa se renovar constantemente, acrescentando que "só o Fidesz é melhor que o Fidesz".

O primeiro-ministro Orbán indicou o dia 20 de fevereiro como a próxima data crucial, quando o partido apresentará sua lista nacional e o líder da lista. Ele afirmou que, após 20 anos como primeiro-ministro, continua "pronto para a tarefa" e observou que, entre os líderes internacionais, ainda é considerado relativamente jovem.

Ao analisar o histórico do partido desde a adesão à UE, o primeiro-ministro Orbán afirmou que o Fidesz venceu todas as eleições para o Parlamento Europeu e conquistou quatro eleições parlamentares com maioria de dois terços. Ele descreveu a "previsibilidade", a "segurança" e a "experiência" como as qualidades de que a Hungria precisa e disse que a transição geracional dentro do Fidesz está ocorrendo em estruturas "ordenadas".

Em relação à economia, o primeiro-ministro Orbán afirmou que o governo prometeu um modelo baseado no trabalho e cumpriu a promessa. Ele citou dados salariais, declarando que, de 2010 a 2026, o salário mínimo subiu de 73.000 florins para 323.000, e o salário médio, de 202.000 para 700.000 florins. Para o próximo ciclo governamental, ele estabeleceu duas metas principais: um salário mínimo de € 1.000 e um salário médio de 1.000.000 de florins.

O primeiro-ministro Orbán destacou o sistema tributário familiar da Hungria e afirmou que o país precisa de "confiança serena" em uma "era de perigos". Nas eleições de 2026, acrescentou, a disputa não é apenas contra adversários políticos, mas também contra "mentiras", "cinismo" e "submissão".

Sobre a imigração, o primeiro-ministro Orbán argumentou que certas decisões são irreversíveis, afirmando que, uma vez admitidos os imigrantes, os países não podem retornar ao seu estado anterior. Ele disse que Bruxelas está pressionando os Estados-membros da UE a se tornarem "países de imigrantes", a menos que se rebelem, descreveu Bruxelas como inimiga da civilização cristã europeia e afirmou que as instituições da UE usam instrumentos legais contra países "rebeldes" citando a multa de um milhão de euros por dia imposta à Hungria. Ele acrescentou que essa penalidade é um preço menor do que o custo de se tornar um "país de imigrantes".

Ao relacionar a migração com a segurança, o primeiro-ministro Orbán afirmou que ela traz violência e "antissemitismo violento", e alegou que famílias judias da Europa Ocidental estão se mudando para a Hungria em números crescentes. Ele disse que o Fidesz-KDNP é a única força política capaz de garantir a segurança dos judeus em Budapeste.

Sobre política de gênero, o primeiro-ministro Orbán afirmou que seguir o "caminho político de Bruxelas" tornaria a adoção de políticas de gênero obrigatória. Ele alertou contra a "sensibilização", dizendo que ela atinge a todos, altera a mentalidade das crianças e muda os alicerces culturais de um país.

Na seção central sobre política externa, o primeiro-ministro Orbán afirmou que a Hungria enfrenta "dois caminhos": guerra ou paz. Ele disse que o Tisza e o DK levariam a Hungria a uma "economia de guerra de Bruxelas" e argumentou que os lideres da UE optaram pela guerra sem ter os recursos necessários para sustentá-la. Ele afirmou que a Ucrânia não reembolsará os € 270 bilhões que recebeu da UE e que a Europa só recuperará esse dinheiro derrotando a Rússia — caso contrário, ele será retirado da própria economia europeia.

Ao abordar as tendências globais, o primeiro-ministro Orbán afirmou que a ordem internacional liberal está em colapso e que a era das nações está chegando. Ele citou Washington, Pequim, Moscou e Istambul como capitais "interessadas" no sucesso da Hungria e disse que o país está firmando acordos para garantir sua segurança. Destacou os compromissos da politica industrial, incluindo um plano para construir 150 fábricas, das quais 101 já estão em construção, e concluiu reiterando que a primavera de 2026 será o momento de "escolher nosso destino".

Extraído de https://www.youtube.com/watch?v=2Pe_uN7mTpE&t=3738s (aos 53 minutos do vídeo)


03 janeiro 2026

Movimento Patriótico Nacional: Algumas Notas

A falta de coordenação no apoio a Eduardo Bolsonaro e a tardia coesão em torno da candidatura de Flávio são uma clara demonstração de que o movimento patriótico nacional ainda não amadureceu o suficiente. O bolsonarismo, embora tenha amplo apoio popular, não criou as macroestruturas que organizam um movimento político. O resultado é uma bancada heterogênea, em que os deputados do PL não se sentem na obrigação de seguir uma liderança, e muito menos uma agenda de longo prazo.

Ao observar com atenção o cenário político nacional, percebe-se que existem de fato apenas dois movimentos realmente políticos com uma agenda para pautar a pólis. De um lado, o petismo com seus partidos associados; de outro, o tucanismo. São as únicas forças que dispõem de uma estratégia de longo prazo e de uma ação consequente ao longo do tempo, orientada para conquistar ou preservar o poder. Todo o restante tem pouca relevância estrutural.

No Brasil, confunde-se frequentemente o que seja um movimento político com o que é, em essência, apenas um aglomerado de políticos. O MDB, por exemplo, não se comporta como partido no sentido rigoroso do termo. Não apresenta estratégia, não possui objetivo definido; funciona, antes, como um conjunto de votos disponível à venda, a ser adquirido ora pelos tucanos, ora pelos petistas, na ausência de qualquer outro comprador relevante. Discute-se, assim, um conjunto de temas politicamente periféricos, enquanto a estrutura real do poder permanece praticamente intocada. Em termos objetivos, há três fenômenos principais: o petismo articulado, o tucanismo articulado cuja ligação com estruturas internacionais é mais profunda e um movimento popular acéfalo.

Este "movimento popular" não chega propriamente a configurar um movimento; trata-se, antes, de uma revolta difusa da população. Não se pode falar em movimento político sem a existência de um objetivo claro. O que aparece, no entanto, é um mosaico de objetivos dispersos: instaurar uma democracia próspera e pujante, resolver os problemas da segurança pública — sem descrever como isso será feito, entre muitos outros. São milhares de objetivos soltos, absolutamente inconexos e, com alguma frequência, politicamente irrelevantes.

Os tucanos, por sua vez, possuem um plano de longo prazo, contam com apoio internacional, dispõem de conexões orgânicas e configuram um movimento político estruturado; compreender esse dado é essencial. Representam, em grande medida, a expressão local da nova ordem mundial, do globalismo e do poder exercido por organismos internacionais. Encarnam, portanto, esse conjunto de forças. Trata-se, em larga medida, da turma formada em torno da London School of Economics, herdeira direta da tradição fabiana. Tanto o tucanismo quanto o petismo se apresentam, assim, como ramificações locais de movimentos internacionais dotados de história, continuidade e doutrina: o primeiro associado à tecnocracia globalista de corte fabiano; o segundo, ao movimento comunista internacional, com sua tradição de cerca de 150 anos.

Assim, ao se considerar que correntes de ideias efetivamente estruturadas estão disponíveis no Brasil, o quadro se afunila: existem, em termos amplos, duas grandes matrizes ideológicas — o marxismo e o liberalismo. Apenas esses grupos apresentam uma agenda de longo prazo, um projeto político nacional.

Como será possível deter esses agentes políticos sem apresentar uma agenda contrária? Como o bolsonarismo pode vencer sem ter um projeto político?

Extraído, por volta de 25 minutos, do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=4fobNbtGThU&t=4633s